domingo, 27 de janeiro de 2008

FRAGMENTOS II

(Pic by Irving Penn)

Misture as gemas com o açúcar
Até formar um creme liso.
(...)
"...in my world of fantasy.."
(...)
Acrescente os ingredientes secos.
(...)
_ Rosana, vem fazer a tarefa já!!
(pela janela)
(...)
Ring Ring
_Alô.
_Quem fala?
_Angélica.
_Boa tarde. Nós estamos com uma promoção da Revista Veja..
_Certo.
_Você já foi assinante de ...
_Já.
_Qual foi o motivo..
_Não tenho interesse.
_Mas você gostaria de conhecer..
_Me ligaram Segunda, já disse que não tenho interesse.
_A Editora Abril agradece. Boa tarde.
_Boa tarde.
(...)
"...burning like na angel
who has heaven in reprieve..."
(...)
_Cala a boca! Você fica me atormentando o dia inteiro!"
(pela parede)
(...)
Misture todos os ingredientes até virar uma massa homogênea.
As claras devem ser batidas em neve.
(...)
_Onde está a molinha de bater as claras em neve?
(...)
_Doce!!! Doce!!!
_Que doce o quê, Bruno, vai tomar banho!
_Buáááááá!!!
(pela janela)
(...)
"Let’s dance little stranger
show me secret sins.."
(...)
Acendo o forno.
(...)
Ploc Ploc Ploc
_Esta molinha é boa mesmo,
quase a neve..
(...)
Rin Ring
_Se eu parar agora as claras vão desandar..
Ring Ring
_Não vou atender coisa nenhuma.
Ring Ring
_Ô meu Deeeeus!..
Ring Ring
_ALÔ!
_É quem?
_COM QUEM VOCÊ QUER FALAR?
(Glória Kalil que me desculpe, mas tenho claras em neve desandando)
_O Toninho taí?
_QUE TONINHO? NÃO TEM TONINHO NENHUM AQUI!!
(...)
" Soon the music’s over
Let’s give it one more chance..."
(...)
Junte as claras em neve à massa e
misture delicadamente.
(...)
_AMOR, PEGA A TOALHA PRÁ MIM?
(pela parede)
(...)
Unte uma forma média,
leve a massa para assar em forno quente
pôr mais ou menos 30 minutos.
(...)
"Let’s dance little stranger
Show me secret sins
Love can be a bondage
Seduce me once again

Burning like an angel
Who has heaven in reprieve
Burning like the voodoo man
With devils on his sleeve

Won’t you dance with me
In my world of fantasy
Won’t you dance with me
Ritual fertility

Like an apparition
You don’t seem real at all
Like a premonition
Of curses on my soul

The way I want to love you
Well it could be against the law
I’ve seen you in a thousand minds
You’ve made the angels fall

Come on little stranger
There’s only one last dance
Soon the music’s over
Let’s give it one more chance..."
(...)
_Tá cheirando assado.
(...)
Prato. Xícara.
(...)
Elevador.
(...)
_Tereza, trouxe um bolinho com café prá você.
Passa margarina que derrete.
Olha que delícia!!!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

EAU DE TOILETTE


Veio até mim
feito pálido cristal,
sem chamar atenção
nem espalhar meu jornal.
Todavia,
é certo que assim não ficaria:
_Não seja tão visceral!!
O excesso sanguíneo
reagiu à monotonia.
Este tal coração
tem que bater todo dia!
Tanto céu estrelado
não iria passar impune.
_Não seja tão açucarada!
Pois sim!
Se fiz mal quero meu julgamento.
Diga alto minha sentença!!!
(...)
Não achou nenhum castigo?
_Não seja tão sincera!
Abafo todos os ais
em prol destes amores.
Não são especiais,
não decoro seus perfumes
nem dedico minhas rimas.
Duram apenas o momento
em que sustento minha farsa.
Agora acabou!
Compre o bilhete
para outra sessão.
_Não seja tão imoral!

domingo, 6 de janeiro de 2008

FRAGMENTOS I

_Não tenho mais cabeça prá nada!
_Pai, o senhor sabe as porcentagens de todos os impostos,
de tudo o que existe e
prá onde vão.
Como não tem cabeça prá nada?
_Mas não posso esquecer o nome de um homem que vi crescer.
(...)
_Mãe, não é a Lolita Rodrigues.
_É sim!
_Aposto tudo o que tenho.
(...)
_O Fumaça gosta que passe a vassoura na barriga dele.
(...)
_Pai, o senhor podia plantar girassol perto do muro.
_Não. Não dá. Cada coisa tem seu lugar.
(...)
_O nome dele tem i, parece Tito..
(...)
_Você tirou um talho da minha orelha ontem,
saiu sangue na hora da missa.
_É um raspadinho pequenininho de nada, Antonio. Tô vendo aqui.
_Põe os óculos que fica maior.
_Pai, é um raspadinho de nada.
*Silêncio.
(...)
_É a Lolita Rodrigues.
_Mãe, não é a Lolita Rodrigues.
(...)
_Moça, posso escrever uma poesia prá você?
_Pode.
(...)
_Angélica, você lembra quando a gente veio veio aqui
colher ramos de cedrinho prá fazer o mural da escola
e você ficava cantando "lerêê, lerêêê" da escrava Isaura?
(...)
_Pai, todo mundo esquece as coisas.
_Não é não, é a idade que acaba com a cabeça.
(...)
_Angélica, você colocou água prá Kika?
(...)
_Como é seu nome?
_Angélica.
(...)
_Olinda, tira meu sapato do sol.
(...)
_Eu lembro o nome de todo mundo da casa dele...
(...)
_O Fumaça saiu prá dar a voltinha dele e deitou no mesmo lugar.
Eta gato preguiçoso!
(...)
_Você vai guardar a poesia?
_Vou.
(...)
_Eu quero ver a "castanha" dela, como é que tá.
(dedos tortos pela idade abrindo o caroço da manga)
_Você tá vendo? Se coloca no chão, daqui uma semana
o broto já está prá fora.
(...)
_Ai que susto pai!
(ele jogou um doce em mim enquanto eu escrevia isto)
(...)
_Angélica, eu sei que você não quer nada comigo,
mas eu gosto de conversar com seus olhos.
_Tudo bem.
_Você vai guardar a poesia?
_Vou.
(...)
_EU NÃO SEI COMO VOCÊS AGUENTAM O BARULHO DESSE RELÓGIO!
AINDA VOU QUEBRAR ISTO!!!
_A gente já acostumou, Angélica.
(...)
_O Fumaça já voltou, mãe, tá esticado lá na calçada.
(...)
_Ele dá tanta importância prá essas coisinhas que esquece...
_Você não conhece seu pai?
(...)
*Porta do banheiro abrindo.
_Você sabe qual é o nome dele? É VALDOMIRO!!
*Porta do banheiro fechando.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

SENTIMENTOS BRUTOS

-Morreu.
-Mentira!
-Morreu sim. Têm meses.
(...)
Desespero atrasado,
inconveniente,
embaraçoso.
Saí de cabeça baixa.
Parecia ter feito algo errado.
Mas o errado era o tempo
que sofreu um recorte
e agora levava um remendo.
Decidi para onde deveria ir
e andei depressa.
(...)
Eu o-d-e-i-o este lugar.
Evito seu nome.
Cidade de caixotes.
Caixotes de restos.
Restos de gente.
É tanta morte que a vida ofende!
(...)
Achei.
Primeiro vi a cor,
depois vi o tamanho,
prestei atenção em todos os detalhes sórdidos
tentando evitar o retrato.
Então li o nome completo,
data de nascimento,
data de ...
e vi o retrato!
A realidade bateu em minha cara,
o cimento amparou meus golpes
e tudo o que pude fazer
foi quebrar os malditos vasos
com as malditas flores de plástico.
(...)
Sentei-me.
Olhei fixamente para o retrato
e falei baixinho:
"quis"
"amei"
"escondi"
"errei"
...
E foi um desfile de verbos
conjugados no passado.
Então elas finalmente vieram.
Torrenciais.
Quentes.
Cegaram-me.
Trouxeram de presente
o sentimento mais cruel:
arrependimento.
Palavra feia.
(...)
O tempo começou a virar.
(...)
Matei a morte que viveu em mim.
Sepultei o rascunho de uma história.
(...)
-Vai passar. Eu dou um jeito.
- Eu sempre dou um jeito.