segunda-feira, 24 de agosto de 2009

FALSIFICAÇÃO

Disseram que minha escrita é simples.
Ok.
Disseram também que ela é previsível.
Ok.
Disseram que qualquer um escreve o que escrevo.
Ok.
Viraram, remexeram, filosofaram, discursaram.
Leram tudo o que escrevi e eu nunca li nada deles.
E aí?
E se eu mentir aqui, quem irá saber?
Minha escrita é pura interpretação.
Desvio de caligrafia.
Quando eu morrer, tudo vira análise mesmo.
E eu, que sou eu, acabo virando outra.
E esta, meu bem, escreve "prá caralho"!!!

TETO DE VIDRO

Prometi que não prometeria mais.
Esqueci.
Então prometi que seria boazinha,
mulher-padrão,
cama-mesa-banho
só para você acreditar
que eu sou só de você.
Mas esqueci...
desfiz a cama,
não fiz a mesa,
abusei do banho.
Mas não lhe esqueci.
Vou prometer de novo
outras coisas românticas
como dizem que deve ser,
como já acreditei ser.
Pego tudo o que não pode,
tranco e lhe dou a chave.
Prometo que não vejo onde vai guardar.
Prometo não usar.
Prometo não mais prometer.
Mas lhe dou uma cópia.

CONTRATO

Eu aqui,
você aí,
amor dividido.
OOOps, não falo de amor.
É segredo meu.
É disfarce seu.
É solidão nossa.

Construindo Dolores VII

(...)
Dolores sentiu-se subitamente só.
Uma solidão atípica.
Uma solidão da própria "Dolores Nervosa"
Isto não era bom.
Não agora.
Um vazio tomou o lugar da vida de fácil resolução.
Sim. A vida de Dolores não tinha tempo de questões.
Era feita de decisões.
E agora, Dolores?
Dolores olhava o azul desbotado do cobertor da pensão
que Josival conseguira para a noite.
Dolores olhava o quadrinho de paisagem da parede.
Dolores olhava Josival ao seu lado.
Homem forte. Homem de ação.
Homem de olho vazado por sua causa.
Mas Dolores não conseguia fechar seus olhos.
"- Tudo por causa daquela velha que implicou com meu perfume. EU ESTOU NESTA PORCARIA POR CAUSA DE UMA MALDITA VELHA QUE IMPLICOU COM MEU MALDITO PERFUME".
Dolores nem percebeu que seus pensamentos viraram palavras, que viraram gritos, que poderiam vir a virar problemas.
"- Cala a boca e dorme, mulher!" Josival comandou.
Ah Josival! Que erro o seu!
Jamais se manda uma mulher feito Dolores Nervosa calar a boca num momento destes!
Aqueles olhos faiscantes ficaram cegos.
Para onde foi Dolores? Não estava mais ali.
O que se viu foi um corpo forte de mulher em fúria alucinada.
"- Desculpa, mulher!" Josival disse baixinho.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ODE AO BIGODE (repostando Dali)


Salve Dali cheio de farsa!
A loucura é contigo.
Permita que, em ti, acerte minha hora.
Liberta Gala de tuas gavetas.
Azuis!
Santa mania, voar em pincéis...
Devolva as cores da borboleta.
Agora vou vestir tua sorte
para despir mais...
... além.