domingo, 26 de outubro de 2008

FARFALLA

São tolices, eu sei.
Assunto batido,
comida requentada.
Nada há de novo por aqui.
É tolice dizer das aflições,
é tolice dizer das cores na face e dos arrepios.
É muita tolice dizer dos sussurros ao ouvido,
do olhar indiscreto e prolongado.
O que são os tremores da espera,
a respiração aos solavancos senão...
tolices?
O que diriam os grandes intelectuais e filósofos da humanidade
sobre os diálogos intermináveis dos olhos nos olhos?
"_Que rol de...tolices!"
É tolice o sorriso que escapa,
é tolice o devaneio constante,
é tolice a fala embargada.
Será uma patologia desconhecida ou distúrbio hormonal
o bater de mil frágeis asas no ventre?
Não.
A medicina moderna julga,
utilizando-se de linguagem vulgar
para entendimento do público leigo,
serem as mais absurdas tolices e
receitam placebo para o desaparecimento dos sintomas.
O viço da pele,
o brilho da aura,
a quietude confessional
são tolices, eu sei.
Neste tolo jogo
não há vencedor ou vencido,
apenas:
TRAPACEIROS!!!
Em algum lugar, eu sei, há um cigarro meu.
Queimando...

sábado, 25 de outubro de 2008

Construindo Dolores III

(...)
"Seus dentes rangiam, tal era a força com que os apertava. Seus pensamentos estavam brigando entre si e isto gerava em Dolores uma dor muito próxima do insuportável. Sem saber para onde deveria ir, deixou seus passos livres, esperando que algum cochicho superior, implícito no universo, a guiasse para um porto seguro."
(...)
"Avistou a casa. Aquele verde descascado das paredes proporcionou um certo alívio. Talvez tenha sido a primeira vez que Dolores sentiu, conscientemente, o que se pode chamar de...aconchego."
(...)
"Ele saiu pela porta da frente, um cachorro o seguia. Tinha um olho cego, fruto de uma briga de bar.
Motivo: mulher.
Que mulher?
Dolores."
(...)
"_ Dolores, Dolores... sabia que este dia iria chegar. Entra, o cachorro não morde."
(...)
"_Me dá uma cachaça, Josival."

terça-feira, 21 de outubro de 2008

SOL DAS QUATRO


Resolvi andar sem pressa,
troquei meus lépidos sapatos
pelas sandálias de dedos.
Escolhi-as pela dificuldade
que estas me asseguram.
(...)
Balzaquiana que não sabe andar de chinelos..
(...)
Desafio este de desacelerar:
pisar de mansinho a grama,
apreender entre os dedos
o pó do asfalto e seu calor.
Laboratório de pés.
(...)

***CONTINUA***




domingo, 19 de outubro de 2008

ÁTIMO

Passou o vento forte,
chacoalhou os objetos e
assustou os animais da casa..
Os jornais saíram se enrolando
pela porta da sala,
pareciam rir da brincadeira..
As janelas estavam batendo,
fechei-as.
As cortinas voavam,
guardei-as.
Meus cabelos me cegavam,
prendi-os.
Mas a porta dos fundos,
aquela que vai pro quintal,
está aberta.
Lá do espelho em que me vejo agora
ouço os sinos do mensageiro tocando.
De novo..

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Construindo Dolores II

(...)
"Ouviu muito pouco de sua mãe, mulher precária no trato com a prole, portanto não aprendeu a sentir e deixar-se sentir."
(...)
"Sua existência era obrigatória, não apreciada. Era um ser humano atípico."
(...)
"Aquela senhora semelhante a um molusco lustroso deixara Dolores fora de si."
(...)
"O perfume de uma mulher sempre tem muito a dizer. As mais velhas olham com ares de reprovação àquelas que exalam perfumes doces, sinuosamente provocantes."
(...)
"_Estique suas rugas prá se lavar. Você fede a talco vencido."
(...)
"Dolores Nervosa"
(...)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Construindo Dolores

O que tenho:
"Não que fosse feia, mas não se podia dizer que Dolores era uma mulher bonita.
Tinha magnestismo, isso sim... um desleixo sexy..."
(...)
"Seu cabelo era de um laranja cansado, raízes descuidadas..."
(...)
"Recusava-se a pintar as unhas de vermelho alegando que o vermelho era cor de unhas de mulher da vida..."
(...)
"Casou-se porque se sentiu cansada, depois de seu segundo filho completar doze anos mandou o marido embora. Quando questionada sobre as razões do rompimento, respondeu sonoramente:
_Nunca suportei sua voz.
Diante disto, o marido calou-se."
(...)
"_Não sei o que tenho que os homens não largam do meu pé!.
Isto era dito com a maior honestidade possível, uma vez que Dolores não tinha jeito com homens, não tinha jeito com gente, aliás não se interessava, esta é a verdade."
(...)
"Tinha mãos grandes, assim como os pés.. seus olhos traziam os traços indígenas da família da mãe. Sempre olhava os estranhos de soslaio...esperando algum ataque talvez.."
(...)
"Foi direto para o confessionário, não esperava que ali existisse alguém naquela hora."
(...)
"O sangue tinha parado de correr, congelou."
(...)
"_Padre, matei a velha!"
(...)
"Foi aí que tudo começou."

sábado, 11 de outubro de 2008

Essa moça do batom vermelho e tridente de açúcar
veio dançar uma valsa subaquática onde eu vivia..
Ela tinha muitos planos para mim.
Ela tinha muita coisa para me contar.
Então eu ouvi.
Então eu aprendi a dançar a valsa subaquática!!

sábado, 4 de outubro de 2008

SOLFEJO


São em sete.
Servas da estação.
Surgem serenas em sol:
estas árvores do meu quintal.
Conheci seu lado improvável,
aquele "difamável",
sorrateiro e ardiloso.
Enegrece o olhar de quem repara
pois, despidas do verde que as ampara,
feito garras cuspidas do solo,
seguram bolas coloridas,
pipas destruídas,
a camiseta do ídolo..
Prazer frívolo!
Vampiras disfarçadas!
Mas são servas..
E, na próxima estação,
a natureza há de devolver
aquela alma pura,
a poesia cheia de doçura
feita à sua sombra fresca.
Que assim seja.
AMÉM!