segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

"Carpe Diem"


Disse-me a mesa:
"_Não me julgue só mesa,
não pretendo ser só madeira.
Apóio sua forma, sua maneira.
Deixe-me entrar..."
Que modos, os desta mesa!
Cobra-me tanta atenção.
Onde já se viu tamanha ausência de padrão?
"_Espera que eu me afeiçoe a você?
Seria um disparate!"
A mesa então,
perdeu sua rigidez,
seu sustento:
"_Você é menos humana que eu.
Cruel.
Sangue gelado."
Tanta carência havia naquela mesa...
uma mesa quadrada
de um só pé.
Fixei o olhar em suas nervuras,
no brilho de seu verniz.
Compadeci-me de suas dores:
"_Eu não sabia de seus valores.."
A mesa deu-me seu perdão.
Fui absolvida pela matéria bruta:
"_Você me cala facilmente.
Ateia-me fogo,
inunda-me até que eu me dissolva.
Meu destino foi escrito assim.
Já o seu...
O que queimar?"

"Stella"

Luz azul vem de cima
mas não de azul
mancha o papel.
Fica a palidez da folha
esperando uma idéia à toa
tingir a estrela
de céu.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Construindo Dolores VI


"_ Se eu for prá jaula me mato, padre!"
Não que não soubesse quais palavras
eram as adequadas
mas definitivamente outras eram as oportunas.
Havia, nos olhos daquela mulher,
um excesso...
"_ Não cabe a mim julgar.."
"_ Padre, cala a boca!
Só vim aqui prá descansar,
não prá ouvir opinião.
Puxou conversa,
acabou escutando o que não devia.
AGORA FICA QUIETO!!!"

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

FRAGILE















Porque se vem chuva,
diluem-se as cores.
Porque se vem sol,
contraem-se os olhos.
O rio permanece em seu leito
de tranquilidade.
E nossa não- existência
em NADA alterará
a rotina dos ventos..

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

condicionamento operante

às 7 desperto,
mas às 9 volta o sono..
o colchão rouba minhas formas,
o cobertor não me solta,
o travesseiro passeia.
às 12 quero cor,
às 13, sabor.
prefiro ver o sol das 16,
às 19 o olho brilha,
às 21 já quero a lua,
às 23 já sou sua,
às 24 já nem sei...
às 7 recomeço.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

just because of you
(Ryden)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

quid pro quo


tomei por verdade
o devaneio.
existi na memória alcoólica.
dia cheio de gotas,
gotas sóbrias,
traidoras!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Construindo Dolores V

"_ Não olha prá trás, Dolores. Corre."
(...)
"Dolores não entendia como sua vida tinha chegado àquele ponto, corria sem entender, chorava sem entender."
(...)
"_ Você vai buscar os meninos?"
"_ Meu leite já secou tem doze anos, vão ter que se virar."
(...)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

EFEITO DOMINÓ

O cheiro de pneu queimado inflou as pupilas,
fez as cores salientes (lisergicamente).
Instante iceberg...
O vento veloz levou
o leve lenço vermelho de meu pescoço
de mãos dadas
com a alma que fugiu do corpo.
Meu olhar comido pelo olhar
atônito dos transeuntes..
O outro eu
correu
para matar o desejo
do sorvete de pistache,
juntar a coleção de sementes
e plantar,
às pressas,
o jardim da frente da casa.
E o leve lenço vermelho,
ladrão de alma,
morre de saudade
do meu perfume.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"prefiro a idéia ao fato. pouca realidade é vista por aqui e, quando surge, trato logo de falsificá-la. sobrecarga de entrelinhas! quero provocar as reticências no intuito de que se mantenha o exercício, o ritmo perfeito do pensamento individual. o universo da palavra é lindo, sendo inteira ou quebrada. decupada. vista pelo cérebro, mas de pulsos cortados, sanguínea. sonhando fonemas..."

DÉMODÉ

teleguiadas
telepáticas
trejeitos
tortos
traçados
tópicos
típicos
táteis
túneis
tépidos
trágicos
tecidos
tolhidos
turvos
tensos
trôpegos
tímpados
títulos
tendências
tristes
tráfegos
torpes
tiranos.

domingo, 9 de novembro de 2008

A vertigem não me tira dos passeios à margem do abismo.

sábado, 8 de novembro de 2008

recorte

e toda esta beleza..
este veneno doce,
suave,
sereno,
silencioso.
este diálogo implícito,
sobrenatural..
sussurro de olhos.
arrebata-me!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

AVESSO (apenas um exercício)

"_Eu não amo você!"
Perdoe-me mas...não.
(...)
Soa anti-natural,
cacofonia inata
que não se revela
por não ser aprendida.
Esta expressão de
sensibilidade torta
é posta sob tapetes.
(seria rodrigueana?):
"_ Eu não amo sua fala,
seu sono ruidoso,
seu corpo imperfeito,
seu olhar prático.
Eu não amo seus sonhos,
seus frívolos objetos de desejo.
Eu não amo sua vida em preto e branco.
Eu não amo seu diálogo com o mundo.
Eu não amo suas preferências
sonoras,
alimentares,
filosóficas,
sexuais,
estéticas.
A sua cor favorita não me agrada.
Suas manias não me comovem.
Suas mãos não despertam meus sentidos.
Eu não amo o SEU AMAR.
Não amo seus beijos.
Seu prazer me é indiferente.
Seu jeito de segurar os talheres,
o riso,
as banalidades que,
tantas vezes,
encantam...
Se seus, não amo.
Os seus olhos e olhares não sigo,
não quero abrir seus livros,
não quero "fuçar" sua caixa de memórias,
não quero contar meu dia.
Eu não vejo,
nas nuvens,
as mesmas imagens que você.
Não quero dividir meu banho,
meus lençóis,
meu silêncio.
Para que eu o ame,
precisaria reinventá-lo.
Embutir uma lente de
não-realidade.
Eu, definitivamente,
não amo você.
Pedi perdão por cortesia,
não me sinto culpada."

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Construindo Dolores IV

"A fumaça do cigarro calada, aquele silêncio malemolente era o que Dolores precisava para colocar as idéias em ordem."
(...)
" _ Dolores, por que você nunca me deu uma chance?"
"_ Prá você não me abandonar depois, Josival."
(...)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

FENG SHUI


A escrita parece longa quando no começo e à mão.
É diferente do meu costume.
Eu gosto de escrita crua e curta.
Crua e curta.
Esta sou eu.
Não consigo pensar em outra palavra a não ser "normal"
para designar minha argumentação diante das intempéries,
alegrias, sustos e demais
provocações da existência.
Porque esta sou eu.
E eu quero contar...
Até aqui já temos quatro pronomes pessoais
"eu".
(...)
Bem verdade que pausas serão constantes.
Existe uma preocupação
(dúvida sobre todos os substantivos, adjetivos..)
em construir algo que soe real
e assegure a veracidade deste pequeno tipo de
testamento vivo.
E, ainda assim, há que se ter uma levada
poética,
rock and roll
ou qualquer ritmo que seja interessante
e vá além da própria idéia para
os longínquos que,
porventura,
possam vir a ler.
Porque eu quero contar...
Possuo um pequeno caderno onde,
esporadicamente,
escrevo.
Já com poucas folhas em branco.
As que estão escritas foram passadas a limpo.
Eu não gosto de rascunhos misturados.
Começa assim.

*talvez continue*

domingo, 26 de outubro de 2008

FARFALLA

São tolices, eu sei.
Assunto batido,
comida requentada.
Nada há de novo por aqui.
É tolice dizer das aflições,
é tolice dizer das cores na face e dos arrepios.
É muita tolice dizer dos sussurros ao ouvido,
do olhar indiscreto e prolongado.
O que são os tremores da espera,
a respiração aos solavancos senão...
tolices?
O que diriam os grandes intelectuais e filósofos da humanidade
sobre os diálogos intermináveis dos olhos nos olhos?
"_Que rol de...tolices!"
É tolice o sorriso que escapa,
é tolice o devaneio constante,
é tolice a fala embargada.
Será uma patologia desconhecida ou distúrbio hormonal
o bater de mil frágeis asas no ventre?
Não.
A medicina moderna julga,
utilizando-se de linguagem vulgar
para entendimento do público leigo,
serem as mais absurdas tolices e
receitam placebo para o desaparecimento dos sintomas.
O viço da pele,
o brilho da aura,
a quietude confessional
são tolices, eu sei.
Neste tolo jogo
não há vencedor ou vencido,
apenas:
TRAPACEIROS!!!
Em algum lugar, eu sei, há um cigarro meu.
Queimando...

sábado, 25 de outubro de 2008

Construindo Dolores III

(...)
"Seus dentes rangiam, tal era a força com que os apertava. Seus pensamentos estavam brigando entre si e isto gerava em Dolores uma dor muito próxima do insuportável. Sem saber para onde deveria ir, deixou seus passos livres, esperando que algum cochicho superior, implícito no universo, a guiasse para um porto seguro."
(...)
"Avistou a casa. Aquele verde descascado das paredes proporcionou um certo alívio. Talvez tenha sido a primeira vez que Dolores sentiu, conscientemente, o que se pode chamar de...aconchego."
(...)
"Ele saiu pela porta da frente, um cachorro o seguia. Tinha um olho cego, fruto de uma briga de bar.
Motivo: mulher.
Que mulher?
Dolores."
(...)
"_ Dolores, Dolores... sabia que este dia iria chegar. Entra, o cachorro não morde."
(...)
"_Me dá uma cachaça, Josival."